Tuesday, November 01, 2005

Tão parecidos que eles são

Mário Soares, numa atitude que revela bem o estado de desânimo e derrrotismo que paira sobre a sua candidatura, voltou hoje a criticar a declaração de Cavaco Silva em que este recusa o epíteto de político profissional. À falta de ideias originais, à incapacidade em definir um projecto galvanizante, responde Soares com sugestões de péssimo gosto acerca dos rendimentos de Cavaco, uma fuga para a frente tão evidente e mesquinha que imediatamente o desarma. Pedra atirada, portanto, que cai em cima do autor do arremesso. E que exemplifica, liminarmente, a falta de limites a que se recusará confinar.
Mas quando se julgava que o desnorte morava apenas na candidatura oficial do PS à Presidência da República, eis que Manuel Alegre vem dizer afinal que foi ele, e não Soares, o primeiro a falar da reforma de Cavaco. Na luta titânica para o 2º lugar da corrida presidencial, Alegre pretenderá fazer marcação cerrada a Soares. É por coisas destas que Cavaco não é um profissional da política. É, também por isso, e sobretudo contra isso, que irá ganhar.

O Manifesto de "Esquerda"

A surpresa sobre as tendências de esquerda de Cavaco, que parece ter assaltado alguns após a apresentação na passada semana, do seu Manisfesto de Candidatura, só podem surgir quando não se analisa devidamente o passado económico do ex-PM e se embala na propaganda anti-cavaquista do autoritarismo ou, pior ainda, se acha que Cavaco por ter, por exemplo, lançado as privatizações, não passa de um perigoso reaccionário que delapidou as "conquistas de Abril" - argumentos que encontram zénite na regularmente invocada falta de passado anti-fascista do agora candidato a Belém. Ou seja, típicos preconceitos de uma esquerda bafienta. A essa Cavaco, felizmente, nunca pertenceu. Cavaco sempre se considerou um keynesiano, defensor do papel do Estado na economia, não apenas como mero regulador dos mercados, mas interveniente nas falhas deste e propulsor, quando necessário, da actividade económica. A isto associou sempre um forte cariz social - foi no tempo de Cavaco, por exemplo, que se lançou o 13º mês para os reformados e se consolidou na prática o Estado-Providência após a turbulência dos primeiros anos pós-Revolução.

É certo que a defesa por parte de Cavaco da autoridade do Estado, ou as suas opiniões acerca de certos usos e costumes sociais colocam-no, correctamente, fora dos habituais padrões esquerdistas dominantes. A sua própria pose e um discurso pragmático, centrado numa feliz "obsessão" pela obra feita são características usualmente associadas ao espectro político mais à direita. O mesmo acontecendo com a sua nunca escondida menor predilecção pelos aspectos mais eruditos da cultura. Por outras palavras, Cavaco será "socialmente" de direita, revelando acentuada propensão de esquerda nos assuntos económicos. Sempre foi assim e esteve aqui o segredo do sucesso das maiorias absolutas. Como estará, tudo o parece indicar, a razão da sua vitória presidencial.

Eu apoio Cavaco Silva. Porque na actual situação económica, num país carente de reformas profundas é a única individualidade com peso político de ser alavanca reformadora do Governo, travão de despesismos inúteis, conselheiro nas medidas duras. Sem ideologismos serôdios. Cooperante estratégico do Executivo. Interventivo, contudo, na definição de uma "banda de flutuação" de políticas que caberá ao Governo decidir e implementar, na certeza que a saída para fora desse espaço encontrará, nas competências constitucionais do PR, importante travão. Por isso o seu Manifesto, polémico, não sendo um programa de Governo, define, em parte, os limites de acção concedidos. Sem cartas na manga, Cavaco disse ao que veio e porque veio. E ninguém poderá dizer depois que não sabia. Ainda bem.

Thursday, October 20, 2005

"Não me resigno"

Já está. Às 20.10 do dia 20 de Outubro de 2005, Aníbal Cavaco Silva, 66 anos, anunciou a sua candidatura ao mais alto cargo da Nação. Uma candidatura de independência, de credibilidade, de esperança. Uma referência num deserto de faróis. Sem negociações, sem falsos porta-vozes. Contra a resignação, por Portugal.

Wednesday, October 19, 2005

Alegre, o Marginal?

Considerar Manuel Alegre um candidato marginal, como alguém que vem de fora do sistema dos partidos, é uma pura ilusão de óptica política, que a falta de apoio partidário oficial pode criar e algum oportunismo eleitoral procurará fomentar, mas cuja aderência á realidade é nula - no limite bastará lembrar que não foi por acaso que o anúncio informal da sua candidatura se fez num jantar partidário.

Mas, pior que isso, qual o contributo que Alegre pode dar ao país enquanto PR? Tirando o lado romântico de se ter um poeta no mais alto posto da nação, um lutador anti-fascista de há 40 anos atrás, que mais-valia traz Alegre à já escassa governabilidade deste país? Tirando o poeta, o orador, o tribuno, que ideias se conhecem a Alegre? Ter sido, no PS, um dos maiores opositores às privatizações da década de 80? As convicções que mantém no "modelo social europeu", nas "conquistas sociais de Abril"? Quando houver contestação social, se forem tomadas as medidas díficeis mas necessárias que urgem, de que lado estará Alegre? Alguém espera que Alegre seja em Belém uma alavanca reformadora do Governo? E que peso político terá Alegre para fazer ouvir a sua voz? Se quiser ser reformador, será incoerente com todo o seu passado, se quiser ser coerente, faltar-lhe-á peso político para se fazer ouvir. E também lhe faltará razão.

Que não se façam julgamentos prévios: a única vez que votei PS foi em Alegre para a Assembleia Municipal de Coimbra. Aprecio a sua irreverência, a sua frontalidade. Mas politicamente discordo dele. E se um voto autárquico pode casar bem com essa admiração pelo homem, Belém exige, hoje, alguém que seja a alavanca de uma orientação política. Reformista. De futuro. No sentido oposto à de Alegre ou Soares.

Belém, 2006

Ao contrário do que alguns sugerem não me parece que o papel do Presidente da República seja meramente decorativo. É verdade que o pode ser e quer o 1º mandato de Mário Soares (excepção feita à marcação de eleições antecipadas em 87) quer os dois de Sampaio (excepção feita à queda de Santana) foram disso exemplos. Mas o intervencionismo de Eanes (mesmo depois da revisão constitucional de 82) e o de Soares no 2º mandato exemplificam bem o oposto. Por boas e más razões.

Julgo aliás que um dos pilares (politicamente, o principal) da actual crise remonta a 1995/96. O desgaste de 10 anos de governação PSD (com Cavaco, entenda-se) associada à crise de 93/94 pôs meio país (e 95% da comunicação social) a clamar por uma mudança política. Ao autoritarismo apontado a Cavaco (em parte verdadeiro, noutra inventado, noutra ainda essencial como se veria mais tarde) contrapunha-se agora o discurso do diálogo, da bonomia, das facilidades. Foi assim que Guterres chegou ao poder e, passado o boom do final da década (ajudado pela correcção acertada da crise de 93/94 e pelo esforço de entrada e manutenção do escudo no SME contra quase todos da altura - mérito indiscutível de Cavaco Silva) impulsionado pela entrada no euro e consequente queda das taxas de juro, depressa se viram os resultados: um estado a caminho da bancarrota, níveis galopantes de endividamento das famílias, um aparelho produtivo sem capacidade de competir nos mercados internacionais cada vez mais liberalizados. Em 95 estavam todos fartos do rigor e da autoridade, em 2005 estamos a caminho do abismo...

E qual o papel do Presidente da República em tudo isto? Fácil resposta: na 1ª metade da década de 90 foi o albergue de todas as contestações, o paladino do direito à indignação. Cavalgou a onda do descontentamento, foi cúmplice de todas as intrigas (o jantar do Avis por exemplo), incentivou todas as revoltas fosse por acção ou omissão (a da ponte, por exemplo, as presidências abertas), cultivou relações privilegiadas com os jornalistas. Em 95 poucos diziam isto, Soares negava-o terminantemente. Hoje em dia, olhando para trás poucos o negam. E a confirmação “oficial” até veio de dentro. Estrela Serrano, à altura assessora de imprensa de Soares, escreveu-o, ponto por ponto, na sua tese de Mestrado... Papel decorativo? Nem por sombras...

E depois? Depois veio Sampaio. Ou não veio. Que ter lá estado ou não vem dar ao mesmo. Aproveitando a onda crítica a Cavaco, vence as presidenciais ainda que com alguma dificuldade (53.8% naquelas circunstâncias não foi brilhante – menos que a esquerda das legislativas de 95 somada, contra um Cavaco que, mesmo sem o apoio do PP de Monteiro, superou em 3% a soma PSD+PP). E depois desaparece de cena. Faz discursos redondos a que ninguém liga nenhuma. Embarca na conversa do diálogo e assiste, impávido e sereno, ao caminho para a desgraça. E, finalizada a era Guterres, quando Ferreira Leite luta contra o monstro, vem falar em vida para além do déficit... Fica a questão: alguém acredita que, se Cavaco tivesse ganho as presidenciais em 96, isto tinha chegado a este ponto? Não era preciso fazer o que Soares fez. Bastava alertar, persuadir, invocar o seu peso político, a sua autoridade para provocar as travagens que Sampaio não quis ou não pôde fazer. Aplicar, no bom sentido, no sentido correcto, todo o poder que resulta da magistratura de influência, papel essencial de um Presidente da República.

É por isso que, sem a mínima dúvida, apoiarei Cavaco Silva em Janeiro. Só que agora vai ser muito mais difícil do que em 96. Cavaco não será um salvador da pátria. Mas é o único que a pode travar de dar o passo para o abismo que está à nossa frente.

Mudar de Vida

Começa amanhã. No Centro Cultural de Belém, Cavaco Silva anunciará, tudo o indica, a sua candidatura à chefia do Estado. Num país economicamente anémico, em assinalável desnorte referencial. Ao longo dos próximos 3 meses procurarei desenvolver neste espaço as linhas do que defendo ser, hoje, o papel do Presidente da República. É minha profunda convicção que só Cavaco poderá e saberá corresponder na prática ao desenho estratégico que exporei. É ele, hoje, o único caminho que temos, todos, para mudarmos de vida.